O agiota

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Vitor sempre levou uma vida modesta e doava todo seu dinheiro excedente. Certo dia, descobriu ter herdado de um parente distante uma fortuna de milhões de reais. Sua primeira atitude foi destiná-la à caridade, no entanto os boatos se espalharam na cidade e um rapaz foi logo pedindo:

– Olá Vitor! Você poderia me emprestar uma grana?

– Sinto muito, mas vou usá-la para ajudar os mais necessitados.

– Compreendo… e é por isso que estou a lhe oferecer juros pelo tempo no qual, poderia estar gastando-o. Ou seja, você no final, terá ainda mais para poder auxiliá-los.

Vitor concordou e cobrou uma taxa muito baixa em relação ao dos bancos. Então, uma multidão correu até ele em busca de créditos. Percebeu estar sendo mais caridoso assim, apesar de receber seu dinheiro de volta. Sua bondade era reconhecida, pois levava calotes e perdoava, era compreensivo com quem atrasava as parcelas e apesar do volume da demanda ser elevado, em momento algum pensou em lucrar e/ou aumentar a porcentagem dos juros. 

Os bancários, políticos e a mídia entraram em desespero perante à conduta do Vitor, pois não eram capazes de concorrerem contra um credor desapegado e desinteressado por dinheiro. Por isso, prenderam-no alegando estar praticando agiotagem.

Na prisão, um carcerário mal encarado o conduziu a uma sala sombria. Lá havia uma passagem secreta que levava a um túnel imundo. Ao saírem dele, estavam fora da cadeia. Vitor estranhou, perguntou o porquê de tanta generosidade e ele respondeu:

– Sempre ganhei muito mal. Nunca consegui dar uma vida digna à família, mas o pior foi ver a minha filha quase morrendo, sem poder fazer nada por ela. Até que de repente, ouvi falar de um homem que emprestava dinheiro, sem restrições. Foi maravilhoso ver minha filha sendo salva, porém não tinha condições de quitar o crédito. No primeiro mês, pensei que você seria duro comigo e talvez até me denunciasse, mas me surpreendi ao ver que nada havia acontecido. Passaram-se anos e nunca fui cobrado. Então, fiz questão de devolver exatamente a quantia que devia e ao pagá-lo você ainda me agradeceu.

Vitor demorou para se lembrar dele. Havia feito o mesmo com tanta gente que era difícil memorizar cada indivíduo beneficiado pela sua misericórdia.

Sua fortuna foi embora, não tinha família, nem emprego, contudo sempre encontrava pessoas dispostas a ajudá-lo. Foi fácil voltar a ter a mesma vida serena e feliz de outrora e mesmo sem dinheiro, praticava caridade através do seu tempo e trabalho, em horas livres.  

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