Parábolas da grande batata (Minha vida não tem graça)

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Jean vivia mais um dia horrível no trabalho.Tinha um padrão financeiro elevado,muitos cobiçavam o seu emprego,contudo já não queria mais viver.Possuía todos os bens almejados,lutara bastante para chegar onde estava,mas após conseguir tudo,notou estar numa miséria existencial imensa.

Após o fim do expediente,caminhou sem rumo.Dormiu na rua e permaneceu assim durante dias.Decidiu esperar a morte chegar,suportou fome e sede.De repente, encontrou um senhor revelando um contentamento misterioso.Não aguentou e foi até ele para decifrá-lo:

-Sabe,não entendo de onde vem sua alegria.Não encontro motivos para me sentir desse jeito. O senhor ficou em silêncio e continuou sua contemplação.

-Gostaria de entender o porquê da sua satisfação.

O senhor pegou um frasco e deu a Jean:

-Ao tomar esse resíduo,você poderá conhecer o interior de quem quiser:seus pensamentos,sentimentos,segredos,sonhos… Poderá também,viajar livremente pelo tempo.Até mais.

Jean experimentou no primeiro indivíduo que viu.Ficou surpreso! Não esperava que por trás de um cidadão tão comum,havia um universo incrível.Pôde adentrar ao fundo de todo tipo de personalidade e percebeu que,de fato,as aparências enganam.

Decidiu voltar ao passado e saber o que seus conhecidos pensavam dele.Alguns gostavam e outros não.De súbito,estava de volta no colégio e levou um susto quando,sem querer,observou a Renata.Era uma colega que não tinha muito contato com ninguém.

Seu ambiente doméstico era um inferno,sofria todo tipo de abuso e não conseguia se enturmar em nenhum lugar que frequentava.Em meio às piores crises emocionais,encontrava consolo num garoto que admirava em segredo…Jean!

Um dia,criou coragem e passou horas ensaiando um modo de se aproximar dele.Após muito impasse,foi até ele e pediu emprestado uma borracha.Foi a sua maior glória.Ao chegar em casa,planejou friamente o melhor modo de devolvê-la.Quando pôde,enfim,executar seu plano,descobriu que ele havia se mudado.Nos anos seguintes,teve vários namorados…todos lembravam ele,alguns até tinham o mesmo nome.Ao ter seu primeiro filho,não hesitou e o chamou Jean.

O passado o deixou fascinado.Lamentou ter obtido essas informações da Renata tarde demais.Assim,focou-se nas pessoas do seu dia-a-dia.Frustrou-se ao constatar que alguns eram falsos com ele,porém encontrou um tesouro que compensava a tudo.A Carolina,lindona da emissão de relatórios,nutria sentimentos platônicos por ele!Era estranho,conhecia-a há anos e ela não demonstrava nada.A rotina do escritório era sempre igual,todos eram frios uns com os outros e Jean jamais esperaria isso.

Não podia deixar de ver a sua mãe. Vislumbrou seu nascimento,infância,juventude…Não esperava que ela fosse tão solitária.Era incrível o quanto os homens se afastavam dela,todos seus relacionamentos não davam certo,a família e os amigos riam do seu fracasso amoroso.Ao ver o parceiro dos sonhos,já nem tinha mais esperanças e não tentou nada.Entretanto,ele não resistiu e foi até ela.Era difícil acreditar,mas pela primeira vez,encontrou alguém que realmente correspondia.Ter um filho com ele era bom demais para ser verdade e enquanto crescia,não cansava de contemplar as semelhanças com o seu pai.

Jean sempre se deu bem com sua mãe,contudo não esperava que sentiria tudo isso,ao se colocar no lugar dela.Decidiu,em seguida,entrar no íntimo dos seus amigos e inimigos.Surpreendeu-se ao ver que no fundo das pessoas mais hostis,havia um amor reprimido por ele.Mergulhou também no universo interior de cada forma de vida de todos os tempos.

Após essa experiência,Jean voltou para casa.Tomou um bom banho e foi visitar sua mãe,mas antes passou no mercado para comprar um presente.Olhou para o lado e uma mulher desvirou rápido o rosto.Era a Renata,com seu filho Jean.Tentou disfarçar a surpresa de ter reencontrado seu ex-colega e foi embora.Mas estava em paz com os fatos do jeito que estavam.Pessoas como o Jean,mereciam ser guardadas em segredo,no fundo da sua alma.

Sua mãe adorou a visita surpresa.Estava há tempos sem vê-la e viveu um momento especial ao seu lado.No dia seguinte,foi ao trabalho.A mesma rotina foi mantida,no entanto Jean se sentia completamente diferente.Como sempre,o chefe estabelecia prazos,a Carolina enviava os relatórios do dia,o motoboy entregava-os para clientes externos…Carolina,com seu olhar frio habitual,disse:

-Bom dia Jean,aqui estão os relatórios.

-Obrigado.

-Avise-me caso algum estiver errado(Jean ouve exatamente essas mesmas palavras há anos)

Dessa vez,porém,Jean muda o roteiro.

-Carolina,você vai sair sexta à noite?(Surpresa,tenta conter a emoção)

-N-Não.(fica sem entender nada)

Já prestes a ir embora,Jean diz:

-Gostaria de sair comigo?

Foi a primeira vez que Carolina se sentiu realmente viva,durante o trabalho.Já não apresentava mais a fisionomia depressiva de sempre e esperou ansiosamente a sexta.Jean adoraria ter tomado o antídoto novamente,apenas para observar o que Carolina vivenciava naquele instante.

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